Sessão de Abertura

Por Juliano Araújo, com a colaboração de Naara Fontinele

Homenagem a Pilar de Zayas Bernanos e Lídio Sohn:
videastas em ação no Vale do Jamary

A vida dos migrantes nordestinos que vieram à Amazônia para trabalhar no segundo Ciclo da Borracha; a história dos requeiros no garimpo de Bom Futuro, em Ariquemes, no interior de Rondônia; a dor, o sofrimento e a angústia do indivíduo acometido pela malária; e as consequências do impacto da ação do homem sobre o meio ambiente através da exploração dos recursos do solo, especialmente pela ação do garimpo: esses são alguns dos temas abordados pelos filmes de Pilar de Zayas Bernanos e Lídio Sohn, videastas homenageados na primeira edição do Beira – Festival de Cinema de Porto Velho.

A produção audiovisual de Pilar e Lídio destaca-se pelos procedimentos de criação e pelos métodos de trabalho artístico que empregaram em seus filmes. É importante mencionar que, mesmo antes de virem para a Amazônia, em 1978, no contexto do intenso fluxo migratório do período, estabelecendo-se em Ariquemes, o casal de realizadores já tinha uma forte relação com o campo das Artes (artes plásticas, dança, gravura em metal, ilustrações com nanquim e bico de pena, literatura, música, pintura e teatro). Assim que chegaram a Ariquemes, Pilar e Lídio iniciaram a realização de várias atividades culturais junto à comunidade local, envolvendo-se profundamente com a vida artística não apenas da cidade, mas também de Rondônia, sobretudo no decorrer dos anos 1980 e 1990. Nesse período, eles atuaram em diversas frentes e instituições governamentais, dentre elas cabe notar a criação do Grupo Arikeme – Laboratório Experimental de Arte, que realizou iniciativas importantes em Ariquemes até 1996.

A filmografia de Lídio e Pilar é composta por 4 filmes. Ela ainda fez mais um filme, sua última realização, em codireção com o filho do casal, Odyr Sohn, tendo em vista o falecimento de Lídio, em 1º de junho de 2004, que entretanto havia participado de sua concepção. Povo da ribeira (1989) é o primeiro documentário de Pilar e Lídio. Feito com recursos próprios, mostra os migrantes nordestinos que trabalharam no segundo Ciclo da Borracha na Amazônia como soldados da borracha, mas acabaram sendo enganados com falsas promessas, passando a viver em condições subumanas em Ariquemes.

Praticamente dez anos depois, eles fizeram mais dois filmes: Os requeiros (1998) e Ângulo (1999). A realização de ambos foi possível graças ao Prêmio de Incentivo de Vídeo para Roteiros da Fundação Cultural e Turística do Estado de Rondônia, lançado em 1997, em parceria com o Ministério da Cultura. Os requeiros mostra a história do garimpo de Bom Futuro, em Ariquemes, que foi descoberto na década de 1980 e impulsionou ainda mais o fluxo migratório para a região. Ângulo, por sua vez, é um filme experimental baseado no poema homônimo de Pilar, cujo texto expressa a dramática experiência da diretora quando contraiu malária durante a gravidez.

Em 2001, Pilar e Lídio fizeram, com recursos próprios, outro filme experimental: Inevitavelmente, cuja narrativa aborda a questão do tempo e desencadeia uma reflexão sobre a morte, também baseado em um poema homônimo da diretora. Por fim, em 2007, Pilar fez em codireção com seu filho Odyr Sohn Paisagem ocre, documentário sobre a metamorfose arquitetural da paisagem geográfica devido à ação do garimpo. Odyr auxiliou a mãe na finalização desse projeto audiovisual, cuja concepção ela e Lídio trabalharam, e que ganhou o Programa Petrobras Cultural – Seleção 2003/2004 Cinema na modalidade de curta-metragem em mídia digital, o que possibilitou a sua realização.

A sessão de abertura “Homenagem a Pilar de Zayas Bernanos e Lídio Sohn: videastas em ação no Vale do Jamary” é um convite para (re)conhecer o deslumbre e contundência das imagens e sons compondo dois trabalhos cruciais da obra do casal de videastas: Povo da Ribeira (1989) e  Os requeiros (1998). Ao homenagear Lídio e Pilar, o Beira – Festival de Cinema de Porto Velho tem como objetivo revisitar parte dessa expressiva criação documentária, cujo valor histórico e político se reatualiza fortemente com o passar do tempo, tendo em vista que a opressão, injustiças e impactos socioambientais abordados pelos filmes continuam se reproduzindo em Rondônia, desenfreadamente. Estes filmes experimentam o fazer documentário, conjuram lutas, traduzem sonhos das trabalhadoras e trabalhores, mobilizam pensamentos e se engajam como escritores de tempo-espaço, memória e resistência. Em ação no Vale do Jamary, nas proximidades de Ariquemes, Pilar e Lídio deixaram ao cinema rondoniense um significativo legado que merece e precisa ser reiteradamente revisitado.

 1. Para mais informações sobre os trabalhos de Pilar e Lídio, ver ARAÚJO, Juliano. Documentário em Rondônia: realizadores, filmes e contextos de produção. Campinas, Edições Motriz, 2022.

Lídio Sohn e Pilar de Zayas Bernanos

Rondônia |  1997 |  26 min

Lídio Sohn e Pilar de Zayas Bernanos

Rondônia |  1989 | 24 min