BEIRA convida: forumdoc.bh

Por Júnia Torres, com colaboração de Naara Fontinele

Beira convida: forumdoc.bh é uma mostra especial em que convidamos o forumdoc.bh, Festival do Filme Documentário e Etnográfico – Fórum de Antropologia e Cinema, a compor conosco. O convite lançado ao forumdoc.bh foi de fazer parte da primeira edição do Beira, propondo a curadoria desta mostra e contribuindo na organização de debates a ela vinculados.  

O convite é também uma maneira de homenagear este festival que tanto nos inspira e completou, em 2021, 25 anos. São 25 anos nos quais a vibrante equipe do forumdoc.bh se empenhou em proporcionar experiências de cinema implicadas nas batalhas necessárias, trilhando um caminho em que a exibição de filmes e a reflexão crítica se conjugam e se constituem. Lá, como desejamos fazer aqui, o cinema vem acompanhado do pensamento sobre, com e a partir dele.  

A mostra Beira convida: forumdoc.bh é composta por 6 filmes, 5 longas e 1 curta-metragem. Com ela, nos propusemos a dar a ver filmes e a pensar com eles. A intenção é de fortalecer a aliança entre o cinema e os povos indígenas por meio da difusão e reflexão de títulos emblemáticos que nos colocam face a formas especiais de se construir essa aliança, a nosso ver.

Há algumas décadas diferentes povos e indigenistas pioneiros se interessaram pelo cinema (considerado aqui como experiências diversas de elaboração do sensível por meio de imagens e sons, em movimento, em vários suportes) como forma de expressão de singularidades de modos de ser e (re) existir no mundo e vêm constituindo um corpus de filmes ou uma cinematografia que incide sobre tal linguagem, transformando-a política e formalmente. Tal cinema tem gerado, finalmente, interesse em mostras e festivais internacionais e, ainda que de maneira inicial, mas incisiva, conquistado atenção do pensamento crítico, fazendo com que as teorias e os conceitos que nos ajudam a pensar os filmes, ou por meio deles, venham tendo também que se transformar – e se sofisticar – para dialogar com as novas questões estéticas e éticas que esse conjunto de filmes apresentam ou impõem, deslocando-nos, assim, o olhar e a reflexão.

O Beira, tanto ao propor o convite para organização desta mostra, quanto ao integrar demais títulos de realização ou autoria indígena em sua programação geral, apresenta e partilha um conjunto importante de filmes. No recorte desta mostra em especial, pensamos em um primeiro movimento, na importância de incluirmos obras construídas face à realidade próxima a dos povos originários da região, no sentido de contribuir para refletir criticamente sobre as formas de ocupação que historicamente estão se fazendo neste território, como em todo o país. A proposta – e a aposta aqui – é de que essa pequena constelação de filmes, nos levem a pensar nas relações que continuaremos estabelecendo no presente e no porvir com os diferentes povos indígenas e sobre o papel que as formas de elaboração do mundo sensível – como o cinema – ocupam nessa necessária revisão e retomada. 

É no procurar incidir sobre tal realidade – sobre a relação entre cinema e história, no sentido de seu desvelamento e de sua revisão – que vem a força do clássico e premiado Corumbiara (2009), realizado em Rondônia, que integra a larga experiência do projeto Vídeo nas Aldeias, dirigido por Vincent Carelli, cineasta-indigenista que estará conosco para comentar o filme.

No filme Piripkura (2017), filmado nas fronteiras deste estado (limites oficiais e artificiais que não fazem sentido para os povos da floresta), equipe, câmera e som se embrenham na mata, nos rios, junto e à procura de seus personagens para  apresentar – de forma também contundente – a situação dos povos em isolamento e das tragédias a eles impostas pelo contato e pela colonização que não cessa. Povos, aliás, que estão garantindo o que resta de floresta no estado e suas fronteiras.

Compartilhamos, ao mesmo tempo, exemplos de resistência e contra-colonização em trabalhos de realizadores locais como Pawaat (2015, dirigido por Tony Cinta-Larga) filme que nos apresenta possibilidades de vida com os biomas e saberes originários da região. A relação entre a apropriação do aparato fílmico e a guarda autônoma do território, poderá ser vista e pensada em ZAWXIPERKWER KA’A – Guardiões da Floresta – um filme de ação realizado por jovens cineastas-guardiões Guajajara/Tentehara). 

A mostra reúne ainda, exemplos referenciais de realização indígena contemporânea em outras regiões do país, realizados também em contextos de tentativas de eliminação contumaz de existências não alinhadas à formas de “desenvolvimento” que caracterizam nossa triste época, a era do Antropoceno (ou a “era das catástrofes”, como a nomeia Isabelle Stengers). Forjam-se contra-visões, contra-cinemas, respostas dos vários povos em suas perspectivas, como podemos ver, sentir e aprender em Ava Yvy Vera (coletivo Kaiowá do cinema da Tekoha Guaiviry) e em Teko Haxy – Ser imperfeita (2108, dirigido por Patrícia Ferreira Yxapy em colaboração com Sophia Pinheiro) que nos colocam frente a questões existenciais radicais e em face a possibilidades (ou impossibilidades?) de alianças no presente.

O fato a ser celebrado, de o festival ser realizado na região norte do país, faz com que as questões políticas e estéticas confluentes nestes filmes realizados por e com diversos povos  indígenas sejam ainda, mais essenciais e necessários.

Genito Gomes, Valmir Gonçalves Cabreira, Jhonn Nara Gomes, Jhonatan Gomes, Edina Ximenez, Dulcídio Gomes, Sarah Brites e Joilson Brites

Mato Grosso do Sul |  2016 |  52 min

Vincent Carelli

Rondônia e Pernambuco |  2009 | 117 min

Tony Cinta Larga

Rondônia |  2015 | 13 min

Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge

Mato Grosso, Rondônia e São Paulo |  2018 |  81 min

Patrícia Ferreira Pará Yxapy e Sophia Pinheiro

Goiás |  2018 | 39 min

Jocy Guajajara e Milson Guajajara

Maranhão e Pernambuco |  2019 | 50 min