Mostra Dácia Ibiapina

Por Cláudia Mesquita

Vendo e revendo os quatro filmes que compõem esse breve mas incisivo percurso pelo trabalho de Dácia Ibiapina, me pus a trilhar conexões: ouvi o ritmo do pagode de Amarante (1984) se prolongando na percussão que abre Ressurgentes – um filme de ação direta (2014); vi a memória da repressão policial na ditadura, que  – quase 30 anos mais tarde – ainda amedrontava Raimunda, em Palestina do Norte, o Araguaia passa por aqui (1998), se atualizar sobre outros corpos – negros, empobrecidos, vulnerabilizados -, nas lutas, manifestações e ocupações registradas em Ressurgentes e Cadê Edson? (2019); senti a câmera que se insere em meio a esses corpos e suas ações, energizada pela força do coletivo em movimento, pela dança, gestos, cânticos e gritos, pela coragem de ocupar e resistir (em um particular “cine-transe”, no dizer de Dácia, em entrevista a João Paulo Campos); percebi ainda que a “guerra”, referida – de diferentes maneiras e em variados contextos – por personagens dos três filmes mais recentes, é sempre a mesma: outro nome para a violência sistemática de Estado, em conluio com o poder econômico, contra cidadãos que se juntam para lutar por direitos constitucionais, por uma cidade menos elitista e desigual, e contra abusos cometidos pelo mesmo Estado. 

Se, a par de suas singularidades e diferenças, esses filmes nos fazem imaginar linhas de força em comum, é porque Dácia tem feito de seu cinema, reiteradamente, abrigo de resistências e lutas populares; lugar onde uma memória coletiva dessas experiências pode ser registrada e transmitida; mas também espaço para elaborar, com a incorporação de arquivos heterogêneos, contra-histórias populares que confrontam os consensos midiáticos e as versões oficiais.  

O filme mais antigo da mostra, O pagode de Amarante (1984), realizado com o coletivo piauiense Mel de Abelha, registra em Super 8 uma noite de pagode promovida pelo senhor João Bitu na cidade de Amarante (PI). A fala do personagem para a câmera, antes da festa, é alegre e generosamente contundente ao apresentar o “movimento” do pagode como resistência, em tempos de carestia e dificuldades: “Vamos balançar e pular de um lado pro outro (…) A gente tem que fazer movimento (…) Porque se nós fica parado, os velho fica tudo morto. E vamo enfrentar”. O que se segue, em imagens de rara beleza, inseridas em meio à festa, é um registro sensível da gente pobre que dança, bebe e “faz movimento”, pés percutindo no chão batido, do cair da noite até o sol raiar. 

Palestina do Norte, o Araguaia passa por aqui (1998) se volta para as memórias de moradoras da região onde aconteceu a Guerrilha do Araguaia (1972-1975), brutalmente reprimida pela ditadura. À reencenação, no prólogo, da emboscada e assassinato do líder Oswaldão, seguem-se as entrevistas com mulheres que viveram, de algum modo, os impactos da repressão à guerrilha sobre si, seus companheiros, suas vidas. Nesse filme entre mulheres, chama atenção a presença de Dácia no antecampo, como interlocutora afetuosa e precisa (característica de muitos de seus filmes). Como ela reconhece, “o indizível fica mais indizível ainda quando é de homem pra mulher ou de mulher para homem. De mulher pra mulher é mais fácil”. Nas falas contidas e por vezes sofridas das mulheres de Palestina (PA), o terror da violência de Estado mostra suas marcas.  

Ressurgentes, um filme de ação direta (2014) introduz a persistente relação de aliança de Dácia com movimentos populares em Brasília, assim como o uso de imagens de variadas procedências (muitas delas cedidas pelos próprios militantes). Acompanhando diferentes movimentos de luta urbana (Fora Arruda, MPL, Marcha das Vadias, Santuário não se move), entre 2005 e 2013, o filme trabalha a alternância e o imbricamento entre imagens das manifestações e situações de entrevista nas quais militantes autonomistas rememoram suas vivências e refletem sobre as lutas. Na montagem, avessa à cronologia, resulta uma visão da história não progressista, mas “ancorada na centralidade do confronto entre visões antagônicas de mundo”, como escreveu Vinícius Andrade de Oliveira: notadamente aquele, captado no calor dos embates, entre militantes e forças policiais (e/ou representantes do poder público e de grupos econômicos). Multiplicando operações dialéticas na montagem, Dácia expõe as contradições de situações complexas, desconstruindo o discurso dos perpetradores da “ordem”, e convidando a uma contra-história que confronta os enquadramentos midiáticos das lutas no DF.  

Em continuidade, Cadê Edson? (2019) acompanha a luta popular por moradia em Brasília no período de 2012 a 2019, através da articulação de três diferentes dimensões da história e suas reverberações: a vida de Edson, fundador e liderança do MRP (Movimento Resistência Popular), dissidência do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) no DF; o percurso da luta por moradia em Brasília naquele período; e o acirramento da crise democrática nacional. À intensa retomada de arquivos produzidos por militantes e pela TV, soma-se um elemento novo: imagens feitas pela própria polícia, que registrou o violento despejo, em 2016, do Hotel Torre Palace, ocupado por militantes do MRP. Desviadas do seu propósito original, elas expõem “a mise-en-scène grotesca dos agentes do poder”, na expressão de Fábio Rodrigues Filho, dando a ver (inclusive pelo que não mostram) a perversidade de uma operação de guerra em que os “inimigos” são cidadãos brasileiros vulnerabilizados que lutam por moradia digna. Articulando as imagens provenientes da lente policial ao berimbau da trilha percussiva de Naná Vasconcelos, o filme insere esse episódio de luta e resistência à opressão em uma história e um imaginário mais abrangentes, que abarcam as lutas populares por liberdade, justiça social e emancipação no Brasil desde a colonização.

Buscando na imagem a interioridade das manifestações (“de dentro e de perto, ao rés-do-chão”, ponto de vista “focado no extra-campo do telejornalismo”), na proximidade dos corpos e das emoções, Dácia tem feito da montagem espaço de elaboração histórica – pensada como luta, contradição e conflito, permanente embate de forças. Resulta um cinema firmemente posicionado junto às lutas e resistências populares, mas que não as congela, domestica ou apazigua, abrindo-se para um futuro em disputa.

 1. “Minha interação com as manifestações artísticas e culturais populares é total. Meu corpo vibra com o toque dos instrumentos (…) É como sonhar acordada (…) Filmar dentro de manifestações como em Ressurgentes também é semelhante (…) Sinto o que Jean Rouch chamou de cine-transe”. “Eu não sei. Tenho medo” – entrevista Dácia Ibiapina. Zagaia, 04/09/2020. Disponível em: https://zagaiaemrevista.com.br/eu-nao-sei-tenho-medo-zagaia-em-revista-entrevista-dacia-ibiapina/ Acesso em: 15 abril 2022

2. Andrade, Vinícius. “Ocupar com o cinema – escrita da história das lutas urbanas em Ressurgentes – um filme de ação direta”. Galaxia (São Paulo, online), n. 35, mai-ago., 2017, p. 56-67. http://dx.doi.org/10.1590/1982-2554128968. Acesso em: 15 abril 2022.

3. “Enquadrando o enquadrador”. Alagoar, 06/02/2020. Disponível em: http://alagoar.com.br/enquadrar-o-en quadrador/. Acesso em: 15 abril 2022.

4. “Eu não sei. Tenho medo” – entrevista Dácia Ibiapina. Zagaia, 04/09/2020. Op. Cit.

Dácia Ibiapina

Brasília |  2020 | 75 min

Dácia Ibiapina

Piauí |  1984 | 15 min

Dácia Ibiapina

Brasília |  1998 | 75 min

Dácia Ibiapina

Distrito Federal |  2014 | 74 min