Mostra Histórias de Família

Por André Novais, Kênia Freitas e Naara Fontinele

Muitos filmes brasileiros recentes impulsionaram o desejo de elaboração dessa mostra. São filmes que tornam sensível a experiência familiar, promovem encontros, aproximam corpos e complexificam laços de parentesco, remexendo por meio das imagens e sons nossas sensações em torno do estar em família. Partindo da profusão de manifestações e conversas fílmicas sugeridas pela produção recente brasileira, os filmes reunidos nesta mostra passeiam por muitos lugares em que as “histórias de família” se constituem e se reinventam, pontuando que é sempre possível reencontrar a ideia de família de outro lugar. Muito diversos entre si, os filmes investigam dentro de um lugar que é seu, aproximando a câmera de relações, da própria casa, das pessoas e experiências que preexistem e ultrapassam o cinema. Alguns filmes do conjunto nos fazem sentir os fragmentos da experiência familiar, retraçando ou revirando a impossibilidade, a ruptura, os silêncios e distanciamentos. Eles se conjugam, cada um à sua maneira, aos gestos fílmicos em que a amorosidade das relações fundadas em partilhas, carinhos e cuidado reina e se faz sensivelmente presente; articulando firmemente suas imagens e sons contra as construções sociais impostas pelo patriarcado – com seus padrões e sistemas de opressão.

Sessão 1

No caminho dos curtas da sessão 1, vamos do luto ao renascimento, do ritualístico à cura, da reza ao canto. Em Entre nós e o mundo (de Fábio Rodrigo), Erika é ao mesmo tempo uma mãe em luto (pelo filho adolescente que foi assassinado pela polícia), preocupada com os caminhos do filho de 17 anos e esperançosa pelo novo bebê que está para chegar trazendo vida nova. O luto familiar é também um dos pontos de partida do Espinheira Santa de Kaline Leigue: na experimentação corporal e na entrega para os rituais naturais e espirituais mãe e filha se encontram e se curam. Fechando a sessão, Di cumê, trabalhar e rezar de Fabinho Santinho traz um musical familiar feito com leveza na laje, dentro da geladeira, na sala de casa, com a irmã, a mãe e a avó do diretor. Esses três filmes nos lembram que se entre o mundo e nós há uma dor incalculável, pode haver também um amor infinito nos singelos gestos de cuidado e um tanto de alegria dançante.

Fábio Rodrigo

São Paulo  |  2019 |  17 min

Kaline Leigue

Rondônia |  2021 | 9 min

Fabinho Santinho

São Paulo  |  2020 | 11 min

Sessão 2

Na sessão 2 de curtas temos famílias diversas e formas diferentes de mostrá-las. Enquanto que Bicha-bomba (de Renan de Cillo) trata da questão da homofobia levando pra algo temporal de décadas atrás com o recorte estético do VHS, em Nossos espíritos seguem chegando (de Kuaray Poty/Ariel Ortega e Bruno Huyer) acompanhamos uma mulher Guarani que espera seu filho em um contexto da pandemia da Covid-19. As duas primeiras obras possuem um recorte de tempo que chama a atenção por ser cercado por uma contextualização direta que nos explica um percurso de temas duros até nossos dias atuais. Já nos dois outros filmes da sessão, À beira do planeta mainha soprou a gente (de Bruna Barros e Bruna Castro) e Motriz (de Taís Amordivino), vemos relações entre mães e filhas. Os dois curtas falam de amor e aceitação. O amor está presente mesmo na perda ou no não ser amado em sua plenitude, mesmo que signifique um amor de mãe, um amor pleno.

Renan de Cillo

Paraná |  2019 | 8 min

Kuaray Poty/Ariel Ortega e Bruno Huyer

Rio Grande do Sul |  2021 | 15 min

À beira do planeta mainha soprou a gente

Bruna Barros e Bruna Castro

Bahia |  2020 | 13 min

Taís Amordivino

Bahia |  2018 |  15 min

Sessões de longa-metragem

Os quatro longas compondo a mostra se interligam nos intervalos das dores e sorrisos, conversas e silêncios, desmanche e reconstrução.

Em Os dias com ele, Maria Clara Escobar busca as reminiscências da experiência política do pai e de sua relação com ele, expondo o papel da câmera como mediação do processo de rememoração das violências vividas durante a mais recente ditadura brasileira (1964-1984). 

Vermelha de Getúlio Ribeiro nos move aos pequenos mistérios do cotidiano de uma família em sua casa. A energia familiar escoa por entre os planos, atravessando com uma temporalidade singular os espaços da casa e a fabulação de uma família que desloca raízes e não necessariamente se reúne à mesa no almoço de domingo; mas troca olhares e afetos em torno da fogueira, nos cruzamentos dos cômodos e encontros matinais.

Bem-vindos de novo de Marcos Yoshi: a realização de um documentário sobre o retorno dos pais do diretor, após anos vivendo como imigrantes operários no Japão, é o dispositivo para as reflexões sobre as possibilidades e impossibilidades de reconstruir laços afetivos. A história do núcleo familiar desmantelado pela partida dos pais e a permanência de Yoshi e suas duas irmãs no Brasil é atravessada pelas crises e precarizações do capitalismo neoliberal. 

As Mães do Derick: Thammy, Bruna, Chiva e Ana constroem juntas e com o seu filho tanto uma moradia para si (com as próprias mãos), quanto uma família poliamorosa, não monogâmica e libertária (com as suas vivências). A câmera íntima mas não invasiva de Cássio Kelm possibilita uma aproximação afetiva e concreta no processo e luta cotidiana das formas de inventar o que é uma família.

Maria Clara Escobar

São Paulo e Portugal |  2013 |  107 min

Getúlio Ribeiro

Goiás |  2019 |  78 min

Marcos Yoshi

São Paulo  |  2021 |  105 min

Cássio Kelm

Paraná |  2020 |  77 min

Getúlio Ribeiro

Goiás |  2019 |  78 min