Mostra Brasil: vários cantos

Por Érico Araújo, Simone Norberto e Angélica Menezes

A composição da mostra Brasil: vários cantos se dá em meio ao desafio e ao desejo de acompanhar uma produção dinâmica e contundente testemunhada em vários lugares do País – contrariando, inclusive, as forças regressivas que buscam bloquear a expressão cultural de sujeitos e grupos diversos. Essa articulação de curtas e longas-metragens vem, sobretudo, de um movimento de escuta do que ressoa nos últimos anos em filmes brasileiros. Ela se dá também num emaranhado de mãos, que ao pegarem nos filmes, tentam tocá-los com atenção e dedicação – para bem escutar, é sempre preciso apurar, com delicadeza, os ouvidos. E ainda fazemos essa costura, com a consciência da realização de um gesto modesto e longe de qualquer totalização ou síntese. Com essas preocupações em jogo, a curadoria percebe, especialmente, modos de solidariedade entre obras muito distintas, que fornecem um mapa heterogêneo de recursos do cinema e de territórios de expressão. Essa geografia é permeada pela variedade da manifestação e pela firme materialidade de uma vastidão de lugares, vividos e imaginados, na realidade brasileira. 

Vários cantos do país emergem aqui, nuançados nas curvas de uma criatividade própria, genuína, densa, provocadora e, sobretudo, necessária, em tempos tão adversos. Uma contracorrente inventiva sopra, felizmente, para que possamos elaborar sobre o presente. Os quatro longas e os sete curtas da mostra indagam origens, desnudam conflitos, expõem violências, reconstroem narrativas, desmistificam conceitos, poetizam realidades e tecem a rica tapeçaria da nossa cultura.

Como gesto de diálogo com as obras, tentamos sugerir quatro linhas melódicas de cantos, entoadas segundo táticas distintas entre si: arriscamos agrupar os filmes a partir das ideias de cura, fuga, luta e morada. Esse modo de colecionar e de partilhar o que ouvimos e vimos se tornou uma interessada conversa com as ações dos longas e curtas na vida social, assumindo que um filme é um gesto no mundo. A cada escuta, é possível localizar vibrações em comum, sempre segundo a abertura das possibilidades do audiovisual, seja em interações mais íntimas com o real, seja em várias tonalidades de imaginação e desvio.

Sessão 1: cantos de cura

Quando ouvimos os cantos de cura dessa mostra, partilhamos, quem sabe, formas possíveis de o cinema se engajar na pesquisa de uma saúde. Com laços tecidos entre modos de vida e o fazer audiovisual, Pohã Re’yi (Família dos Remédios) nos ensina, em caminhada, sobre práticas e vizinhanças com as plantas na família Kaiowá. O filme nos chega do tekoha Guaiviry, realizado por Joilson Brites, Jhonathan Gomes, Wagner Gomes e Anailson Flores, com o vivo empenho de processos criativos que afirmam memórias contra o descaso diante das tradições e vidas indígenas. Numa outra toada, entramos nos detalhes da experiência ritualística performada por Jamile Cazumbá em um transe de dez milésimos de segundos. O sagrado tece aqui enredamentos de tempo e de memórias, passagens ancestrais, com inseparabilidade entre gesto, entorno e técnica. Nesse compromisso das imagens e dos sons com processos de cura, As vezes que não estou lá, de Dandara de Morais, nos surge como um espaço de acolhidas e de enfrentamentos, em laços comunitários, para produzir saúde e respiro. O próprio fazer artístico se entrelaça com a vida, num filme que se abre a recursos múltiplos.

Joilson Brites, Jhonathan Gomes, Wagner Gomes, Anailson Flores

Mato Grosso do Sul |  2020 |  14 min

Jamile Cazumbá

Bahia |  2020 | 7 min

Dandara de Morais

Pernambuco |  2020 | 25 min

Sessão 2: cantos de fuga

Das ressonâncias vindas dos cantos de fuga, nos chegam forças imaginativas, de que o cinema se vale, para alçar voos radicais. Nazaré, do Verde ao Barro, de Juraci Júnior, nos fala, por meio de animação, sobre como grandes projetos de ótica desenvolvimentista podem impactar o cotidiano de uma pequena comunidade ribeirinha. Somos alçados às expressões de um território, com recursos no limiar do realismo e com a liberdade de nos projetar a tons e texturas imprevistas. Nessa orquestração entre o vivido e a possibilidade de imaginar, Grade, de Lucas Andrade, nos oferece um gesto de singular frescor, em pacto com aqueles que são filmados, convidados a gerir a ficção, a derivar com as imagens e os sons, desde o mundo que ocupam, com autogestão. Já no curta de Janaina Wagner, Curupira e a máquina do destino, o mito e a invenção da linguagem se associam para interrogar processos históricos de ocupação da Amazônia, atravessada pela destruição vinda com certa lógica de progresso. Em meio a fantasmas, arquivos e imaginação, percorremos estradas, vislumbramos invisível.

Nazaré, do Verde ao Barro

Juraci Júnior

Rondônia |  2021 |  8 min

Lucas Andrade

SP/ MG/RJ/PB/PE |  2022 | 101 min

Janaina Wagner

Amazonas |  2021 | 24 min

Sessão 3: cantos de luta

No prosseguimento de nossas escutas, a luta é um dos principais motores de cantos destes tempos. E ela tem sido trabalhada pelo cinema com contundência. Na elaboração Tikmũ’ũn, em aliança com o audiovisual, os cantos são de incisiva afirmação de outras histórias do Brasil, contada por vozes e gestos, a se demorar nas vastas paisagens e na tensão com as cercas e os invasores brancos. Nũhũ yãg mũ yõg hãm: Essa terra é nossa!, de Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu e Roberto Romero, expõe conflitos sociais e distâncias de mundos, confronta narrativas de origens da nossa sociedade e prolonga, no cinema, os processos de luta por terra e território. Outro embate pode se dar também no cotidiano urbano de Manaus, na conjuntura pandêmica, que acentua processos estruturais de desafios econômicos. Trabalhadora do campo da arte, a personagem de Terra Nova, de Diego Bauer, expõe, na ficção, uma caminhada em situações de emergências sanitárias e financeiras. Ouvindo outro canto, percebemos a intersecção de embates raciais, de gênero e de sexualidade, a partir de Como respirar fora d’água, de Júlia Fávero e Victoria Negreiros. A obra figura cenas de violência que incidem de modos diferenciados nos corpos: faz isso cruzando elaborações íntimas e familiares e nos conduzindo de modo bem próximo à protagonista, por meio de mergulhos nas águas e de formas de escuta do entorno.

Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu e Roberto Romero

Minas Gerais |  2020 |  70 min

Diego Bauer

Amazonas |  2021 | 22 min

 Júlia Fávero e Victoria Negreiros

São Paulo  |  2020 | 92 min

Sessão 4: cantos de morada

Inseparáveis das lutas, os outros dois filmes da mostra modulam um canto específico, que vincula cinema e práticas de morada. Ainda estamos, sim, em constante embate. Pode ser em contextos urbanos, nas dinâmicas complexas de formação política e de construção de modos de associação: é o caso de Entre nós talvez estejam multidões, de Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito, tecido na intensa ligação entre quem filma e quem se engaja em atos de ocupar. Podemos estar também em contexto de habitar a aldeia. Em Virou Brasil, jovens cineastas Awá-Guajá colocam em perspectiva os modos pelos quais a terra deles “virou Brasil”, essa formação que carrega para os povos indígenas a violência e os riscos de desaparecimento. Realizado por Pakea, Hajkaramykya, Arakurania, Petua, Arawtyta’ia, Sabiá e Paranya, em parceria com o projeto Vídeo nas Aldeias, o longa nos endereça a constante reflexividade sobre o próprio ato de filmar. Nessa travessia, é preciso aprender a ouvir a afirmação da morada sagrada, a escutar os mais velhos e as brincadeiras das crianças.

Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito

São Paulo  |  2019 |  17 min

Pakea, Hajkaramykya, Arakurania, Petua, Arawtyta’ia, Sabiá e Paranya

Maranhão e Pernambuco |  2019 | 91 min

Espaço e tempo para muitas escutas, esperamos que esta mostra seja um itinerário de múltiplos aprendizados, com a possibilidade de criarmos alguma proximidade com outros cantos, ao vermos e ouvirmos os mundos que nos chegam do cinema. Quem sabe, o audiovisual seja um modo de nos engajar para constituir outros laços na vida social, capazes de enfrentar autoritarismos e de fortalecer processos históricos de construção comunitária.