Mostra Filmes Rondonienses

Por Juliano Araújo e Lúcia Monteiro

Mostra Filmes Rondonienses:
memórias e experimentações

Um trabalho de memória e uma vontade de experimentação: esses são, de certa forma, os dois principais gestos que marcam os curtas-metragens inscritos e selecionados para a Mostra Filmes Rondonienses da primeira edição do Beira – Festival de Cinema de Porto Velho. Estamos frente a um conjunto de cineastas que, por um lado, valem-se da potência do cinema para interrogar as lembranças das pessoas que povoam e povoaram o território comum, e também para investigar o passado do próprio território. Por outro lado, experimentam formas que contribuem na elaboração de memórias, nas projeções de futuro e na invenção de um presente – e um presente para o audiovisual. Que fique claro: os dois gestos não se excluem e não podem ser automaticamente associados a um ou outro gênero. Percebemos a memória e a experimentação como linhas de força transversais ao importante conjunto de filmes inscritos.

Dentre os selecionados, um grupo de filmes que procura trazer à tona as histórias de vidas de migrantes que vieram para Rondônia, caso de Difuso – experimento sobre ser e estar (2022), de Jackson Fatel, que lança um olhar afetivo para a carismática Maria Antônia Soares, avó do realizador cujo sonho era ser cantora. Bainha, eu sou da 7 de setembro (2018), de Maria Luzia e George Fonseca, homenageia um dos carnavalescos mais ativos e aclamados da cultura popular portovelhense. Carlos Reis investiga a tradição dos foliões da Companhia de Santos Reis, de Ji-Paraná: Devoção e Folia de Reis (2022) acompanha a primeira saída do grupo depois de um longo período resguardado, durante a pandemia. Já Do maravilhoso amazônico: o Cabeça de Cuia e a Mãe da Seringueira (2021), de Eva da Silva Alves e Renato Fernandes Caetano, traz as narrativas de uma mulher seringueira e, com isso, apresenta elementos da cosmovisão amazônica.

É também marcante entre os curtas selecionados a inventividade com o trabalho audiovisual que se articula a questões políticas. A Lenda da Sapatona da Facona (2022), de Allyne Pinheiro, aposta na potência do quadro fixo e da narração para trazer à tona um violento episódio de homofobia. Banho de Cavalo (2016), de Francis Madson e Michele Saraiva, explora a plasticidade do corpo humano e da natureza e ao mesmo tempo problematiza a degradação ambiental e a expansão da monocultura. Em Entre Terra e Asfalto (2020), Kaline Leigue consegue capturar os silêncios que entrelaçam a melancolia e a afetividade que caracterizam a relação dos personagens com os espaços de Ariquemes. Finalmente, Arte para quê? (2019), de Ariana Boaventura e Joesér Alvarez coloca em imagens e palavras a busca de sentido para a arte e a realização audiovisual neste tempo-espaço compartilhado.

É importante destacar que há, entre os selecionados, filmes de realizadoras e realizadores independentes, como também alguns contemplados pela Lei Aldir Blanc, aspecto que reforça a importância e a necessidade de políticas públicas para o audiovisual no Brasil, e, em especial, na Amazônia e no estado de Rondônia que sejam, de fato, perenes. Há que se comemorar, ainda, a existência de filmes não apenas da capital, Porto Velho, mas também de cidades do interior de Rondônia, como Ariquemes, Cacoal e Ji-Paraná, um aspecto que revela a potencialidade do cinema para nos trazer histórias as mais diversas e plurais possíveis. Por fim, registra-se a força de todo o conjunto de filmes inscritos, que em sua diversidade revelam as múltiplas possibilidades do audiovisual rondoniense, que conhece uma franca e rica expansão.



Allyne Pinheiro

Rondônia |  2022 |  2 min

Joesér Alvarez e Ariana Boaventura

Rondônia |  2019 | 10 min

Maria Luzia Ferreira Santos e George Fonseca

Rondônia |  2022 | 18 min

Michele Saraiva e Francis Madson

Rondônia |  2016 |  6 min

Carlos Reis

Rondônia |  2022 | 25 min

Jackson Fatel

Rondônia |  2021 | 13 min

Eva da Silva Alves e Renato Fernandes Caetano

Rondônia |  2021 | 8 min

Kaline Leigue

Rondônia |  2020 | 9 min